Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

Luis Ricardo Duarte para o jornal de letras

 

Peregrinação futurista

 

Quando ouviu as notícias sobre o terramoto e o tsunami no Japão, há poucos meses, o filho de Patrícia Reis disse-lhe: “Mãe, este é o cenário do teu romance”. E não se enganou. É de um recomeço, depois de uma destruição, que se faz Por Este Mundo Acima. A escritora chama-lhe até uma “peregrinação futurista”, na medida em que projeta num futuro ficcionado os desafios que se colocam à Humanidade de hoje. Na sequência de uma catástrofe, Eduardo tenta refazer a vida e as suas memórias. Quebrados os laços com os amigos, é para dentro que olha, enquanto o mundo lá fora prossegue a luta pela sobrevivência. E só em dois tipos de descendência, um filho que adota e um manuscrito que redescobre, conseguirá dar sentido a uma existência no meio do caos. Uma alegoria com a qual a autora de Antes de Ser Feliz e No Silêncio de Deus aborda a eterna luta entre o bem e o mal. Assim como quem escreve uma carta a um filho.

 

Jornal de Letras: A imagem de uma Lisboa destruída foi o ponto de partida deste romance?

Não. Escrevi este livro para o meu filho mais velho. O meu objetivo era passar-lhe uma mensagem sobre a urgência da partilha e da bondade, abordando também as questões do bem e do mal e dessa coisa maravilhosa que é a amizade.

 

Como surgiu depois a destruição?

Muitas vezes, é nas situações limite que conseguimos ver verdadeiramente estes valores ou como cada pessoa lida com eles. No entanto, o cenário de um mundo destruído, que eu até nem desenvolvo muito, apenas sugiro, sem descrever os pormenores, é apenas uma moldura, a partir da qual as personagens agem e redefinem as suas prioridades. Sem a vertigem em que vivemos hoje em dia, o que se torna essencial? O que é a condição humana? Tornamo-nos bons só porque houve um desastre? Estas são algumas das perguntas que foram aparecendo ao longo da escrita do livro.

 

É uma alegoria?

Gosto de pensar que é uma peregrinação futurista. Já depois de ter acabado o romance, li uma frase muito interessante do Albert Einstein. Perguntavam-lhe como seria a III Guerra Mundial. Ele disse que não sabia, mas que tinha a certeza que a IV seria à pedrada. Ou seja, o desafio da sobrevivência está muitas vezes à espreita. Mas o mais importante de tudo isto são as pessoas e a forma como elas se relacionam.

 

A amizade parece ser um tema que lhe interessa particularmente.

É verdade. A amizade é a melhor forma de amor que existe. Uma forma de partilha única, que não se faz por e-mail ou sms. Implica toque físico e contacto visual. E dedicação.

 

A escolha de um editor para contar o poder da amizade foi intencional?

Foi. Todos os meus livros têm um velho, o que um psicanalista poderia explicar pela marca que o meu tio-avô deixou em mim. Era um grande leitor e foi ele que me ensinou a ler. Do ponto de vista da história, um velho editor permitiu-me estabelecer uma ligação com os livros, que para mim também era muito importante. Como diz David Lodge, mais do que os tratados ou os compêndios de história e de sociologia, os romances são o melhor reflexo do tempo em que vivemos. Acredito, por isso, que a redenção está nos livros. Nem todas as civilizações são iguais, mas todas, sem exceção, contaram histórias.

 

No romance, ressalta também o trabalho ao nível da estrutura.

Que surgiu por acaso. Este foi um livro que demorou três anos a ser escrito e reflete também essa indisciplina. Como não vivo dos livros, roubo tempo para escrever. Vou colecionando as histórias na minha cabeça e depois tento pôr cá para fora. A ideia de fragmento surgiu naturalmente e depois foi trabalhada para equilibrar as várias vozes que vão aparecendo, sobretudo a de Eduardo, o editor, e a do Pedro, a criança. Também porque nunca sabemos tudo sobre nós, sobre os nossos pais, os nossos amigos ou namorados. A vida é um conjunto de fragmentos que reunidos sequencialmente dão uma manta de retalhos que pode ter mais ou menos sentido. Como na ficção, a minha vida também é assim.

 

Dom Quixote, 220 pp, 14,90 euros


publicado por Patrícia Reis às 20:04
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