Sexta-feira, 17 de Junho de 2011

O livro na catástrofe por Maria Alviza Seixo no JL

O último livro de Patrícia Reis apaixona. O seu desastre é deste tempo. Mas vem de manso, parece não perturbar, e perturbado está ele: um miúdo caminha ante um velho que o segue, preso à música que ele trauteia. Andam sobre escombros de um vasto desastre, a destruição da cidade, do mundo. Nada se vê nem ninguém: raros foragidos, atacantes, gente que sobrevive oculta. A composição dos capítulos (de 1. a 8., sendo 0., o primeiro, o da devastação) abre vários caminhos, é de andamento que se trata: Eduardo, velho editor, consciência solitária do flagelo, a custo “sobe escadas” (acto simbólico), “faz listas” de coisas para sobreviver (e outras: “sismo/fogo/terramoto/inundação/bomba”), recorda amigos: Sofia, Jaime e Lourenço. Relações profissionais e sexuais; peculiaridades que imergem do quotidiano banal em que todos são idênticos mas únicos. Sofia centra-os: dormira com todos, estimam-na, narra a Eduardo uma relação dúbia (amante de um homem casado que é gay) e, quando ele lhe procura a casa entre os escombros, na Av. Da República, lê um maço de cartas em que ela conta os abusos sexuais que sofreu do próprio pai.

A mansidão da escrita insinua-se para revelar e criticar sem apóstrofes, dando a sentir o que nela se chama o Mal: ameaça e corrosão interior/exterior de desmoronamentos morais e físicos, sofrimento, anulação. Nós e os outros, nós com (fora) os outros. E a história (“como se a arte fosse transformadora do real”, p.156) dá a agreste aventura de quem (se parte) e de quem fica (se fica). Mas um outro por ali (um miúdo que perdera a mãe) é descendente e continuador: Pedro caminha à frente  sobre “as rochas” e reconstruirá a comunidade e ressurreição. A comunidade nasce de um livro: um manuscrito que o velho editor só agora lê, e transmite a Pedro que  consegue imprimi-lo e difundi-lo e, integrando-o na biblioteca da avó de Eduardo, fomenta o gregarismo cultural e vivencial da nova geração.

Por Este Mundo Acima (D.Quixote, 220 pp, 14,90 euros) diz que a destruição e a necessidade. Do mal, da reconstrução, do entusiasmo. Esforçado sem ser entediante, criativo sem pretensiosismo. Dizem a catástrofe as tensões expressivas (fragmentarismo, alternâncias, mutações de perspectiva, multilinearidade do narrado que não anula a história) e intensificam o discurso. Em que o desastre pouco se deplora (lastimável é visioná-lo!) e se ultrapassa no ritmo das frases que caminham, e fazem da memória matéria de construção. Livro terrível mas reconfortante pelo seu sentido e marca estilística, na história que aflige e cativa sem nunca negligenciar a composição – ou o “coração”.

Jornal de Letras, edição de 15 a 28 de Junho de 2011


publicado por Patrícia Reis às 14:52
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