Segunda-feira, 18 de Julho de 2011

Os livros podem ser salvadores, entrevista a Leonardo Ralha CM

Correio da Manhã - Como surgiu a ideia de escrever um romance sobre uma Lisboa pós-apocalíptica?

Patrícia Reis - Queria uma moldura que desse espaço a uma narrativa centrada na memória e, depois, na sobrevivência sem a vertigem de tecnologia em que vivemos. Lisboa é a minha cidade e, por isso, não senti qualquer impulso de escrever sobre outro local. Acredito que a geografia afectiva também importa. Quem lê 'Por Este Mundo Acima' pode assim imaginar alguns espaços da capital em escombros.

- Em 'Por Este Mundo Acima' nunca explica o que destruiu grande parte da cidade e do Mundo. Porquê?

- O cenário de desastre não é central. É um livro sobre pessoas, especialmente sobre a amizade e o que nos liga aos outros. De certa forma, este livro é um legado aos meus filhos e uma homenagem a duas amigas, a Inês Pedrosa e a Maria Manuel Viana. A amizade é a melhor forma de amor e pode ser transformadora. O desastre, nuclear ou não, é apenas um pretexto.

- Pensou muito em como seria a vida sem electricidade, água potável e tudo aquilo que damos por adquirido no dia-a-dia?

- Tentei imaginar como seria regressar a um estado similar ao do século XIV, sem água, esgotos dignos desse nome, electricidade, mas sobretudo sem telemóveis, internet, e-mails, todas estes veículos de comunicação que nos obrigam a estar ligados 24 horas sobre 24 horas. Sobra-nos pouco espaço para cuidar dos outros. Para conversar sem ser interrompido. Para ouvir.

- Criou um mapa do que restaria de Lisboa semidestruída?

- Sim. Confinei a personagem principal a uma zona específica de Lisboa (a Alameda) embora haja incursões por outros espaços, como a praça de Londres ou a avenida da República. Este mapa geográfico da cidade é também o meu, onde me movimento, nasci e vivi. Foi mais fácil escrever sobre espaços que conheço, de certa forma, mas o que o livro relata pode ser deslocado para qualquer outro espaço ou cidade.

- O romance apresenta a relação de um homem mais velho com uma criança que já só conhece o novo Mundo, tal como em 'A Estrada'. Esse livro do escritor norte-americano Cormac McCarthy foi uma inspiração?

- É o único livro de Cormac McCarthy que não li. Acredito que seja distinto, pela sinopse, embora haja outros livros onde a relação homem/criança é explorada. Aqui há duas situações que se opõem e que me interessam relatar: o abuso sexual dentro da família e a relação entre a personagem principal e a criança que encontra, sendo que a mesma representa um redenção e uma possibilidade de futuro de uma forma algo purificadora. A personagem principal é um velho, a quem o miúdo dá alento e a oportunidade para partilhar e transmitir informação através dos livros.

- Na narrativa há referências a bandos mas nunca experenciamos os seus actos de violência. O que a levou a 'poupar' os leitores?

- Interessa-me a ideia de Bem e de Mal e julgo que a mesma está patente nos livros anteriores que escrevi, mas nunca como neste. É evidente que perante um acidente que nos faz regredir não podíamos eliminar o Mal. 'Pedro' tem pensamentos contraditórios sobre isso e há uma cena violenta de agressão a um animal. Logo de imediato, dá-se o arrependimento. Acredito na dimensão bipolar de cada um de nós: somos capazes do Bem e do Mal e isso faz parte da condição humana. Não explorei a violência porque a terceira parte do livro, a que conta a vida de 'Pedro', é sobre as suas contradições e sonhos, mas é ainda muito focada na vida e influência de 'Eduardo', o velho que o cria e lhe dá toda a educação possível num mundo em despojos.

- A personagem principal é um editor e os livros têm uma enorme importância em toda a narrativa. É a forma de deixar claro que os livros podem sobreviver a todos os 'gadgets' electrónicos que os ameaçam?

- Os livros podem ser salvadores e ao mesmo tempo cristalizam o tempo. Se quisermos saber tudo sobre o século XIX, basta ler o Dickens. Se quisermos perceber o Norte de Portugal e as famílias abastadas, lemos Agustina Bessa-Luís. E por aí fora. Os livros resistem a tudo e, ao mesmo tempo, são uma fonte de interrogação e um mapa de tesouro, já que abrem possibilidades e trilhos que talvez nunca tenhamos pensado.

No caso deste livro, há um manuscrito - sobre o qual pouco sabemos - que é central para fazer com que 'Eduardo' parta à procura de um amigo, ciente de que ele estará morto, e por causa dessa saída, dessa ousadia, encontra 'Pedro'. De repente, diz o editor, tem um livro e uma criança. É uma metáfora? Pode ser. Nessa medida, 'Por Este Mundo Acima' é também uma homenagem aos livros e à sua função de salvação e de consciência do tempo...

PERFIL

PATRÍCIA REIS nasceu em 1970 e começou a escrever no semanário ‘Independente' aos 18 anos. Lançou em 2004 o primeiro romance, ‘Cruz das Almas', e não mais parou. É responsável pela revista ‘Egoísta'.


publicado por Patrícia Reis às 11:58
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