Quarta-feira, 15 de Abril de 2009

entrevista para a universidade do Algarve

Pode ver em http://www.contemporaneocc.blogspot.com a partir de 8 de maio ou ler aqui

 

Entrevista feita por Isa Mestre

 


1.    Onde e quando sentiu que surgia em si o ímpeto para a escrita?

Não me recordo de viver sem livros, sem estar rodeada de histórias de encantar, de piratas e outras maravilhas. Assim que aprendi a escrever, comecei as minhas histórias. Primeiro poemas – muito maus! – e depois pequenas histórias que funcionavam como remakes do meu dia-a-dia. Depois nunca mais parei. Escrevo todos os dias. Por razões diferentes: por questões profissionais, no blogue (www.vaocombate.blogs.sapo.pt <http://www.vaocombate.blogs.sapo.pt> ), nos diferentes emails que troco com amigos que estão noutras paragens, por estar a meio de um conto ou livro ou ter de mandar uma crónica (tenho uma crónica semanal no Semanário Económico). Escrever ficção todos os dias não me é possível. A escrita não nasce todos os dias a esse nível, mas por vezes acontece ter momentos em que a ficção surge de rajada e não tenho como controlar o impulso.

2.    Como caracterizaria a sua prosa? Crê encaixar-se na linha de autores da sua geração, como é o caso de José Luís Peixoto, Filipa Melo, Gonçalo M. Tavares, entre outros?

Se Deus existir não existirá uma linha de autores de determinada geração, é um rótulo demasiado limitador. A minha escrita não está relacionada com a do José Luís Peixoto ou com a do Gonçalo M. Tavares. São universos distintos. Tenho amizade e respeito por ambos. São escritores que, de certa forma, reinventaram a literatura portuguesa, ao nível da escrita, dos temas a abordar, das fórmulas narrativas. A Filipa Melo tem um único romance publicado, do qual gosto muito, mas não sei o que virá a seguir. Eu procuro ter a minha voz e não ser um sucedâneo de ninguém. Julgo que é o que todos os escritores fazem: procurar uma voz única, ter um modus operandi de contar uma história passível de ser reconhecido e apreciado pelo autor. Não sei se o consigo. Vou trabalhando. O tempo o dirá. Sobretudo, os leitores farão uma avaliação porque quem nos confere esse estatuto, o de escritores, é o leitor, não são os críticos, os editores, os amigos ou familiares.
 
 
3.    Os seus romances visam recorrentemente a temática do amor. Em Morder-te o Coração e Amor em Segunda Mão oferece-nos o retrato de pessoas desorientadas que buscam um sentido que apenas encontram no outro. Que mensagem pretende transmitir ao mundo através da sua escrita?

Eu escrevo sobre pessoas e sobre as emoções que as relacionam com o mundo. Não escrevo ficção científica, apesar de ter, em tempos, apreciado e consumido o género com alguma avidez. Não há nada mais importante do que as pessoas e  elas são a estrutura, o osso, da minha escrita. O amor é quase inevitável e recorrente. A maioria dos livros é sobre isso. Desde tempos primordiais. Não há como contornar esse sentimento que nos une ou desune, que nos alegra ou fustiga. Hoje vivemos uma vertigem de comunicação que faz com que as relações das pessoas estejam envoltas em características muito interessantes. A ideia do compromisso para a vida parece ter terminado. As pessoas não se sentem obrigadas a casar, a ter filhos, a percorrer um padrão mitificado pelos nossos pais ou avós. Há imensas nuances na forma como nos relacionamos e isso é muito apelativo à imaginação de qualquer autor. Acabo sempre por concluir que a maioria das pessoas procura uma ideia melhor de si e uma ideia melhor do amor. Afinal, talvez seja isso, o tal banalizado amor, que nos une e nos torna humanos.
 
4.    É escritora, jornalista e editora. É diariamente difícil conciliar estas três profissões?

Não, difícil é conciliar uma profissão, dois filhos, um marido, duas gatas, um pai doente, uma mãe pré reformada, um irmão sem destino definido... Conciliar é um verbo de todos os dias e de todas as pessoas que estão activas. Costumo dizer que roubo tempo de vida para escrever ficção e é verdade que o faço, fora de horas, quando a casa está silenciosa e os meus filhos dormem. A minha profissão é vivida em pleno, com alguma adrenalina já que tenho um atelier de design e conteúdos (www.004.pt <http://www.004.pt> ) e a vida empresarial é uma verdadeira loucura, sobretudo em tempo de crise. No âmbito do atelier, criei um dos meus projectos de eleição, uma revista trimestral, chamada Egoísta (www.egoista.pt <http://www.egoista.pt> ) que vai fazer dez anos e que tem mais de 30 prémios internacionais. É uma revista de curtas ficções e de divulgação de trabalho artístico, plástico e fotográfico.  Permite-me, também, publicar e editar os melhores escritores da actualidade, portugueses ou estrangeiros.
 
5.    Foi já caracterizada como “uma das mais originais vozes da actual literatura portuguesa”. Sente de alguma forma o peso do seu sucesso?
  
O sucesso, se tiver peso, é na conta bancária e a minha é muito leve e despojada. Não me sinto uma escritora de sucesso. Escrevo. Faço-o com a maior honestidade possível. Espero que as pessoas gostem. Não ganho fortunas com a literatura, não me parece que venha a ganhar. O vil metal, como se costuma dizer, não é a minha motivação. O protagonismo também não. Não faço lançamentos dos meus livros e não apareço em festas ou em revistas de coração, sou uma pessoa muito pacata e caseira que gosta de contar histórias. Se as minhas histórias tocarem alguém, fico feliz. Ganho o dia. Vejo tudo isto de forma muito simples. Um dia posso deixar de escrever. Não deixarei de ler.
 
7.    Acredita na ideia de que “saber ler é tão difícil como saber escrever”?
Não, acredito que é urgente ensinar as pessoas a ler. A ler sem preconceitos. Cada um pode ser um naipe enorme de leitores. Não precisamos de ler a literatura russa para sermos cultos. Isso é ridículo. Há milhões de livros pelo mundo: é preciso procurar autores, apreciá-los, ler com gosto, perceber que um livro é viajar sem sair do sítio. Se para mim isso sucede com um livro de José Eduardo Agualusa ou Inês Pedrosa, para outra pessoa pode funcionar com Nicholas Sparks ou outro autor. O que importa é ler. O resto é uma treta. Eu li ficção científica e livros policiais com enorme prazer. Um dos grandes romances portugueses da actualidade é um romance policial, chama-se “Longe de Manaus” e é de Francisco José Viegas.
 
8.    Ao fim de alguns anos de vida literária, quem é a Patrícia Reis que revê na sua escrita?
Não revejo nada. Nunca volto aos meus livros, a não ser que mo peçam. E se isso acontece sinto que aquele livro que escrevi, que está nas minhas mãos, me totalmente estrangeiro. Não tenho saudosismos, não volto atrás. Escrevi, revi, entreguei. O livro já não é meu. É de quem o apanhar.
 
9.    Consegue enquanto escritora dissociar-se da obra, ou funde-se algumas vezes naquilo que escreve?
Lucien Freud diz que “todos os retratos são auto retratos”, ele que sendo neto do grande Freud, deve ter a sua razão. Prefiro, contudo, a frase de um grande escritor português, Vergílio Ferreira, que dizia: “o livro é um biombo atrás do qual a gente se despe”. Todos os livros têm um pouco do autor e do mundo que o rodeia. O escritor é um larápio dos outros. Nada mais do que isso.
 
10.  Em duas palavras como caracterizaria a literatura portuguesa?
A literatura portuguesa em três palavras: uma excelente viagem.
 
11.  Que podemos esperar de Patrícia Reis no futuro? Existe algum projecto que gostaria de trazer a público?

Acabei há dias uma novela que se passa em Lisboa e na Figueira da Foz. Chama-se “Antes de ser Feliz”. Ainda não a arrumei na minha cabeça, mas fui feliz ao escrevê-la e isso é dizer quase tudo. Depois? O futuro a Deus pertence, diz-se por cá.
 
 


publicado por Patrícia Reis às 21:37
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