Terça-feira, 10 de Maio de 2011

entrevista por Ana Mesquita para o seu blog

Por Este Mundo Acima


Entrevista Ana Mesquita (www.anamesquitaveryown.blogspot.com)


Desde quando te lembras que começaste a  escrever?

Não me lembro de não escrever. E lembro-me distintamente  que a escrita sempre esteve relacionada com dois sons: a música e o barulho da  máquina de escrever que  o meu tio-avô me deu para as mãos. Comecei aos  sete a fazer histórias curtas. Pela adolescência tive uma paixão fulminante  por Mário de Sá-Carneiro e umas tentativas (muito más!) pela poesia. Coisas da  idade. Sempre disse que seria escritora. Escolhi o jornalismo como  profissão para conseguir conciliar a escrita com uma certa sustentabilidade  financeira. Ninguém – ou poucos – vivem exclusivamente da escrita.  

 
Onde gostas de escrever? Em casa? À mão? No PC?  

Hoje escrevo sempre no computador e tenho pânico sempre que algo  acontece, como aqueles mistérios informáticos que fazem com que o ecrã apareça  às riscas (já me aconteceu por duas vezes). Guardo tudo numa memória externa.  Gosto de escrever em casa e preciso sempre de música para o fazer. O meu sítio  ideal – peço desculpa se vos parecer inconveniente ou pouco sério, embora se  façam coisas muito sérias neste local – é na cama. Existem fotografias minhas,  com sete ou oito anos, que mostram como eu escrevia então: exactamente na  mesma posição que assumo hoje, as mesmas almofadas, o mesmo cenário. Nunca  mudei, afinal.

 
Respiravas se não  escrevesses?

Sim. Não respirava se me tirassem a capacidade de ler  ou ouvir histórias. Eu gosto de ouvir e gosto muito de ler alto. É uma  tradição que se perde com o crescimento dos filhos e que, curiosamente, tenho  conseguido manter até agora, tendo o meu filho mais novo onze anos. Há livros  que lê sozinho, outros que lemos os dois, ou seja, eu leio, ele ouve. Sempre  de uma forma muito atenta. Uma coisa é certa, possa embora parecer um cliché,  não é possível escrever sem se ler e ler muito e muitas vezes fora do que nos  é mais agradável, da chamada zona de conforto.

 
Como é  dirigir a Egoísta há mais de dez anos?

O primeiro pensamento é: com  uma grande dose de loucura aliada a uma inesperada organização. A Egoísta é,  porventura, um dos meus projectos mais importantes do ponto de vista  profissional. É, ao mesmo tempo, um desafio permanente, sem nunca se ter  perdido de vista a ideia de que é um veículo de comunicação do Grupo Estoril  Sol e que aposta forte nas curtas ficções e nos portfolios de artistas que, de  outra forma, não tinham onde publicar. Quando começámos, vai fazer 11 anos, o  facto de ser uma publicação temática pareceu, a muitos, como algo quase  patético, sem hipóteses. Hoje em dia há uma série de revistas que são  temáticas, até revistas de órgãos de comunicação social. Não deixa de ter  graça termos feito “escola” e que existam alguns alunos universitários que se  têm mostrado interessados e elaborado teses sobre a Egoísta.  
 
Quais foram as edições que mais gozo te deram?  

Todas as edições dão um prazer único e a próxima, aquela que irá,  por princípio, superar a anterior tem algo de mais empolgante. Ao fim deste  tempo todo é complicado escolher uma ou outra como preferida, sinceramente. Há  temas maravilhosos que deram resultados surpreendentes, como é a edição sobre  Deus ou até sobre Sexo. O mais importante é conseguir ser  inovador na  revista seguinte. Isso é essencial e, muitas vezes, muito complicado.  

Estás a lançar um livro visceral porque tem a ver um filho. A  escrita é sempre fruto de paixão, ou então não vibra?

A escrita é  uma paixão. Na verdade, a vida também o deve ser e se a encararmos assim  teremos tendência a viver um pouco melhor. Este livro foi escrito para o meu  filho mais velho, o Sebastião, por ser uma história sobre a importância extrema da amizade, o bem e o  mal. Acredito que são valores que temos de passar às novas gerações.  
 
Do que é que te esqueces quando estás a  escrever?

Do meu marido, se for sincera. Ele pouco se importa porque  gosta de me ver escrever e até me empurra a isso. É capaz de me dizer: vai  escrever, é o que precisas. Também me esqueço das horas e de comer.   
 
Qual é a tua palavra preferida?

Reciprocidade,  porque sou pouco dada ao individualismo e ao egoísmo, embora me fizesse bem  ter algumas doses destas duas características de tempos a tempos.

O  piropo que mais gostas de ouvir?

O meu filho mais novo manda-me sms  a dizer: gosta tanta ti, mãe. É uma formulação amorosa caseira,  digamos.

Um intelectual pode ser vaidoso, arranjar-se, e ver-se ao  espelho? Ou isso é olhado com alguma desconfiança?

Um intelectual  pode ser um top model! Ser intelectual é o quê? Alguém que pensa, que tem  mundo, que lê, que reflecte? Tudo isso não significa que não se tome nota da  nossa imagem. A imagem é uma projecção também do que somos. Se nos  considerarem menos por termos atenção ao que vestimos então há aí também uma  forma de discriminação e preconceito. Só podemos ter talento, por exemplo,  literário, se sofrermos, formos eremitas, vestirmos de forma disciplicente?  Julgo que essa noção já se perdeu e ainda bem.

Tens medo de  alguém?

Das pessoas em geral. De multidões. Da maldade das pessoas.  Das pessoas que estão em lugares que lhes permitem ferir seja quem for.  Pessoas que não me conhecem, por exemplo, e tecem comentários, que dizem mal  pelo puro prazer da maldade. Somos um povo que não é educado na ideia de  festejar o outro, de se alegrar com o êxito alheio. Há uma mesquinhez que  depois leva a outras múltiplas maldicências que me metem medo.  Combato este medo -  embora a palavra medo talvez seja excessiva -  cultivando uma certa indiferença na certeza de que o gosto, tal como a  amizade, é selectivo. Há ainda outro aspecto que é a idade. Quando se é muito novo queremos pertencer uma tribo, ter uma matilha. Queremos, no fundo, que gostem de nós. Com a idade, aprendemos que é fantástico existirem pessoas que gostam de nós e que as outras só têm a importância que lhes quisermos dar.

Com quem nunca irias para uma ilha  deserta?

Sozinha.

Se pudesses juntar em casa, à mesa,  seis grandes escritores, vivos ou ressuscitados, quem  seriam?

Vergílio Ferreira, Machado de Assis, Clarice Lispector, Eça  de Queiróz, Agustina Bessa-Luís e Inês Pedrosa.

O que  servirias?

Gaspacho alentejano para começar com peixinhos fritos,  queijo e azeitonas, vinho tinto.

O que faz rir?

Poucas  coisas me fazem rir. Nunca fui uma pessoa de riso fácil. Há um actor dos anos  50 que tem esse poder sobre mim, Danny Kaye. De resto, nem com os Gato  Fedorento ou anteriores. O riso chega-me através das pessoas com quem partilho  a vida, pelos apartes que fazemos – vicentinos ou não – e que dão uma certa  cor ao meu dia.

O que farias por amor?
 
Morreria por  amor.



publicado por Patrícia Reis às 11:21
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